Percorrendo o caminho das pedras: A vida de Maria das Neves.

Por Lis Nery
Contadora de muitas histórias dos lugares por onde já andou, Dona Maria das Neves fala com propriedade sobre a vida de uma garimpeira itinerante. Aos 60 anos, já percorreu numerosos garimpos Brasil afora.
Ela rememora o passado sob olhar distante e por vezes reflexivo: “a gente nasce, cresce, domina o mundo, casa e morre”. Confessa que não conseguiria morrer sem ter conhecido outros lugares, outros garimpos. Nessas andanças pelo mundo, conheceu o garimpo de Goiás, do Sertão da Carnaíba, de Socotó, sempre acompanhando seu esposo.
Hoje, viúva e à espera de sua aposentadoria, está de passagem pelo Povoado de Vila dos Remédios, distrito de Novo Horizonte. Emocionada, conta que ela e seu marido foram para Juazeiro, Carnaíba, a procura de tratamento médico. Seu esposo tinha adquirido a silicose, doença contraída pelo pó extraído na exploração, mas escutaram do médico as tristes palavras:“A doença não tem mais cura, está muito avançada”. Poucos meses depois, já muito debilitado, ele faleceu.
Falar de sua história sem falar de luta, de batalha, seria impossível. Ao mencionar as dificuldades encontradas para trabalhar no garimpo e na roça simultaneamente, ela declara o desejo de sobreviver de outros recursos porque de plantação e de pedras hoje em dia é muito difícil. “Gostar, gostar, a gente não gosta, não, porque é cansativo, é um lugar muito alto e difícil pra você adquirir um pão, e o pão já é uma riqueza pra gente”, relata D. Maria.

Com singularidade e uma memória invejável, ela relembra de quando morava com seus pais e trabalhava na roça em Campo Formoso, sua cidade natal, e a descoberta do garimpo ainda muito jovem, com apenas 16 anos. Idealizar um panorama de vida dessa mulher é traçar uma trajetória pautada em vivências de um cenário de extrações de pedras.
Ela conta cheia de orgulho que desde a adolescência até hoje vive de um garimpo para outro sempre presenciando episódios de euforia e de dor. Com alegria, relembra o dia em que chegou pela primeira vez no garimpo, “Começamos a trabalhar e era muito bom, pois saciava o meu desejo de viver viajando, perambulando pelo mundo. Quando saía uma possibilidade, vendíamos e era uma farra inigualável, éramos inocentes nem sabíamos ao certo o valor de mercado daquelas pedras. Vivi me animando com essas aventuras de hoje ganhar e no outro dia perder”. Dessa trajetória adolescente, casou-se aos 17 anos com garimpeiro e deram início a uma longa jornada de ser mãe de sete filhos, mulher e trabalhadora nesse ambiente desafiador.
De muitos momentos bons ao encontrarem uma pedra e vender posteriormente, tiveram também inúmeros casos fatais e dramáticos. Ela menciona um dia, no garimpo de Golinha no Estado de Goiás, quando o cabo de aço do elevador rompeu de uma base no momento em que desciam cerca de cinco a seis homens fixados a esse guincho e todos faleceram no local. Com tristeza, afirma que já viu muita coisa boa e muita coisa ruim, muita morte.
Os resultados de anos de trabalho se confundem com sorte, vício e azar. Para Dona Maria, os frutos obtidos desta labuta diária e muitas vezes incansável são desestimulantes. Ela menciona que chega a sentir que a sorte Deus só poderá oferecer aos seus. Em anos de trabalho, lamenta o fato de nunca ter conseguido se estruturar financeiramente e, por isso, hoje, enfrenta dificuldades em encontrar emprego por causa da idade já avançada e por não dominar outras técnicas. Ela afirma ainda que, às vezes, existem pessoas que passam a vida toda, como também é o seu caso, batalhando e descendo em perfurações normalmente muito profundas e perigosas para conseguir um valor muitas vezes irrisório.
Desigualdade entre funções e sobre a oportunidade de comandar seu próprio espaço para trabalhar similarmente como o patrão é uma critica recorrente. Os investimentos que costumam ser bem elevados como despesa de água, luz, explosivos, máquinas, como guinchos específicos para cada perfuração e todos esses custos praticamente isentam dos garimpeiros essa possibilidade de crescer como um empresário e os tornam subalternos sem ao menos ter o poder de escolha, “Resta para gente desenvolver o trabalho de lavar, de quebrar o arroio que traz dentro, retirar o cisto preto (nos garimpos de esmeralda) que daqui de Novo Horizonte é branco e ir lavando e quebrando para ir extraindo as pedras de rutilos. Deste trabalho, conseguimos captar cerca de mil reais por mês, sendo que tem mês que não conseguimos nada e somos obrigados a dar um jeito aqui e outro ali fazendo compras fiado, fazendo uma roça e assim vamos levando a vida”, aponta D. Maria.
Como não tem carteira assinada e nenhuma garantia de direito profissional, ela salienta ainda, por exemplo, que trabalhou durante os noves meses de gravidez até dar a luz. Isso ocorreu durante suas sete gestações e não parou por ai. Quando as crianças ainda eram pequenas, teve que se desdobrar para pagar alguém para olhá-los enquanto se dirigia ao caminho das pedras.

Do amargo do cansaço á doçura de quem desafia o medo.
Por Lis Nery
Com ar de resistência, Dona Maria Lúcia da Silva Souza, 49 anos, moradora de Vila dos Remédios, povoado de Novo Horizonte, discorre sobre as dificuldades enfrentadas ao longo da vida, com questões ligadas à saúde e à depressão.
Aos 16 anos, Lúcia se casou com garimpeiro e foi nesta tentativa de ajudar o esposo com a renda familiar que aos 23 anos foi ao garimpo pela primeira vez. Estonteante, relembra como foi esse momento de descoberta de estar em um ambiente ainda desconhecido.“Foi uma sensação muito boa, realmente pra mim até hoje o garimpo é muito bom”.
Natural do povoado de Tatú, comunidade de Novo Horizonte foi morar no povoado Vila de Remédios assim que se casou. Hoje fala com confiança sobre as mudanças que ocorreram com o tempo no garimpo da região. Com a chegada de exploradores dos quatros cantos do mundo, as pedras foram ficando cada vez mais escassa. Hoje, a probabilidade de voltar sem conseguir nada em um dia inteiro de trabalho é muito alta.“Não está tendo muita pedra não, hoje mesmo eu fui e também não achei quase nada. Quando não acha, a gente vai embora, quando precisa descer a gente desce, mas a gente faz de tudo, fica em cima, desce buraco, já desci as catras”, aponta.

Desafiar o medo é sua atividade preferida. Mãe de quatro filhos, ela fala orgulhosa de sua filha Gabriela, formada em Odontologia, mas que, diante da dificuldade em encontrar emprego na área ou de construir seu próprio consultório, acompanha a mãe no garimpo. Acostumadas em descer até seis metros de profundidade amarradas a uma corda, Lúcia afirma que, se fosse para ela descer em perfurações de 50 a 100 metros, usaria o guincho sem objeções.
Mesmo vivendo nessa incerteza dia a pós dia, o olhar chega a brilhar ao afirmar que ainda prefere dez mil vezes estar no garimpo trabalhando do que cuidando da casa. É o olhar de uma mulher que rompe com os estereótipos pré-definidos de uma cidade pequena no interior da Bahia. Destemida, Maria Lúcia confessa que já se acostumou com os riscos de seu trabalho ser bem elevados e não sente mais apreensão ao abrir um buraco, presenciar as detonações e descer a catra (expressão muito utilizada no vocabulário dos garimpeiros).
Com um olhar resiliente e de superação, ela lembra o momento em que decidiu casar ainda muito jovem com intuito de sair da casa de seus pais que eram rígidos e controladores. O sonho era ser livre e independente, algo que nunca foi possível. Logo que concretizou o matrimônio, engravidou e se viu presa novamente pelo casamento e filhos, mas, hoje, aconselha a filha a não se casar tão jovem e tão pouco se tornar mãe. Vislumbra para os filhos que também vivem de garimpo, uma vida com que preze a liberdade e independência.
Empoderada, diz que se dependesse dela os seus quatro filhos estavam em São Paulo estudando e trabalhando e não enxergando o casamento como a única meta de vida. Com tom de preocupação, relata que tem receio de sua filha caçula se tornar como ela: casada, com filhos e enraizada neste lugar sem chances de progredir, de desbravar outros horizontes. Mas, mesmo assim, se sente feliz ao observar que hoje, felizmente, as pessoas têm mais liberdade.
Avó de três netos, a anciã da família Silva menciona sobre o respeito que sempre vivenciou dentro do garimpo de Novo Horizonte e, em voz altiva, diz que nunca nenhum homem mexeu com ela e com nenhuma de suas companheiras dentro desse espaço.
Ao relembrar todo o dinheiro que já ganhou comercializando pedras, lamenta não ter nada, somente despesas com remédios controlados que somam de R$ 300 a 400 reais por mês. Porém, sempre existe a esperança de encontrar uma pedra e transformar a sua realidade. Isso para ela é o motivo de ainda resistir e lutar por um futuro melhor para ela e seus filhos.
A benevolência de quem nasceu para lutar
Por Maiudes Anjos

Destemida em seu modo de ser, Jucileide Souza não mede esforços para o trabalho, assim como a mãe Amélia que criou seus oito filhos no garimpo. Criada na Baixinha, roça próxima ao povoado Vila dos Remédios, desde cedo ela aprendeu a profissão e acompanhava os pais de sol-a-sol subindo para o garimpo de São Gonçalo.
A proteção que usava era as blusas de mangas compridas, sapato nem tinha. Vaidosa e determinada sempre teve que lutar muito para conseguir o básico para viver e aprendeu a olhar os problemas de sua vida com naturalidade, sem lamentar. Emocionada, ela fala do significado do garimpo na sua vida. “É tudo para mim, se não fosse o garimpo eu já teria morrido de fome. Foi por meio dele que construí essa casa e comprei meus móveis”, diz ao mostrar a casa pequena e bem arrumada.
O trabalho duro já não a incomoda mais, chegou a trabalhar grávida até os nove meses de gravidez. Os filhos Daniela e Carlos têm hoje oito e 12 anos. “Eles são minha inspiração, minha vida, assim eu aprendi com meu pai a agradecer quando se tem trabalho e a não reclamar”.
Sua expressão ganha um ar triste ao falar do pai José, que perdeu há apenas dois meses afetado pela silicose no garimpo. A família descobriu a doença que agia silenciosamente. “Meu pai ficou cinco anos com essa doença, um lado do pulmão dele já havia secado. O médico até falou que não é uma doença de matar rápido, é de judiar e ele sofreu muito mesmo”.
Jucileide também sofreu, fica explícito em sua expressão. Abandonada pelo namorado com dois filhos pequenos, foi lutar sozinha no garimpo. Ali mesmo conheceu o novo marido com quem está há dois anos. É grata a ele pelo apoio emocional que recebeu nesse período difícil de sua vida.
“Ele também é assim como eu guerreiro. Vai todos os dias, desce catra de 50 a 100 metros abaixo do chão com outros homens. A gente que é mulher fica na parte de cima e desce um ou dois metros. As pedras de menor valor eles jogam para a gente catar”.

Ela conta que as mulheres têm que pedir permissão para catar essas pedras nos garimpos, pois são de propriedade privada, na maioria do prefeito ou fazendeiros que têm as minas próximas aos seus terrenos. “A gente não pode chegar assim invadindo entende? Aí a gente pede e cata um ou dois quilos de pedra por dia. Funciona assim, se valer 200 a gente vende de 80 ou 100 para esses compradores que passam de porta em porta”.
Os compradores são os comerciantes de minério de cidades próximas que compram para revender. Mesmo lembrando da exploração contínua, ela nunca pensou em desistir do trabalho. É comum compradores chineses comprarem somente as maiores pedras de rutilo, geralmente coletadas pelos garimpeiros homens que descem a catra e conseguem encontrá-las.
Em frente de casa com a bacia cheia de pedras, de cócoras, ela mostra como as mulheres têm todo o trabalho de limpar as pedras de uma a uma para conseguirem vender. Juscileide reconhece que precisa ainda de melhores condições que assegurem o trabalho das mulheres no garimpo. “Acredito que é necessário melhores oportunidades de emprego para nós mulheres”. Assim, ela segue firme em seu propósito no garimpo, ofício que aprendeu a fazer desde sua infância como único modo de subsistência.
A anciã que expressa nos traços a longevidade
Por Maiudes Anjos

Vitalina Monteiro aos 94 anos ainda tem voz firme, que fica embargada pela emoção ao rememorar épocas difíceis de sua vida. Queixo comprido, olhar fixo e atento, como quem não pode deixar nenhum detalhe da história passar despercebido. O vestido e o lenço bem florido demonstram um tom alegre, característico de sua personalidade. Sentada em sua cadeira de balanço e rodeada por fotografias de diversas épocas de sua vida, ela olha as estudantes de jornalismo com curiosidade. “O que quer esse povo?” pergunta ao filho deficiente visual, que está sentado ao lado como intuito de protegê-la.
Somente depois de convencida de que as estudantes não são mesmo ladrões, ela resolve contar sua história. Lembra que nunca foi de ter preguiça na vida, sua rotina sempre se iniciou cedinho, às três da manhã. Cuidava da casa, dos filhos e fazia intervalos da roça para o garimpo. Plantou mandioca e fez farinha até quando a terra não deu mais e então depositou todas suas forças no garimpo.
Não foi um trabalho que a atraiu de imediato, já tinha visto muitas mortes de amigos nesse ramo, entretanto não havia outra opção em Vila dos Remédios, mas considera que teve sorte. Sorri quando remete a sensação de felicidade que teve quando encontrou a primeira bola de ouro de sua vida. “Minha mãe foi quem mais achou ouro nessa cidade”, diz o filho Orlando de 40 anos que trabalha na Secretaria de Meio Ambiente de Novo Horizonte. Orlando também já foi garimpeiro e acompanhou a vida toda o trabalho da mãe.
Vitalina busca na memória um acontecimento que até hoje é lembrado pela família e pessoas mais antigas da comunidade. Naquele dia de chuva forte, um tempo tenebroso e difícil impactava Vila dos Remédios. A fome atingia boa parte daquele povoado. O marido saía cedo para o garimpo. Vitalina por causa da chuva teve que ficar em casa com as crianças. Inebriada pela esperança de que a água da chuva trouxesse algumas pedrinhas do garimpo, pegou o guarda chuva e saiu pelo povoado, que, na época, ainda era uma roça localizada entre as grandes montanhas de pedras.

De longe, próximo ao riacho ela avistou algo como uma bola de luz. O objeto despertou sua atenção imediata pelo brilho intenso mesmo à distância. Quando conseguiu pegar o ouro conta que ficou paralisada pela emoção. Ela não lembra ao certo quanto de dinheiro equivalia na época. Mas vendeu a pedra, arrumou a casa que tinha piso de terra batida e paredes de enchimento. Comprou os móveis de madeira que ainda estão expostos na sala e conseguiu ajudar no enxoval da vizinha que tinha tido gemêos.
Vitalina lembra que criar os filhos naquela época era difícil. Uma mulher sempre ajudava a outra, os maridos pouco ficavam com as crianças. Mas, mesmo assim, ela considera que os tempos eram melhores. Lembra que as pessoas eram mais unidas e sentavam na calçada no fim do dia para dividir suas angústias. “Era diferente, não tinha essa violência, essa competição por dinheiro que é hoje”. Ela chegava do garimpo e fazia bredo e bertoelga ou palma para comer com os filhos. Mas ela não reclama. “A tranquilidade era outra”.
Conheceu o marido na casa dos vinte, tinha namorado pouco. O pai não a deixava ir para os bailes, que eram frequentes. “Melhores que os de hoje”,diz. Mas ela só saía com a mãe para o garimpo e aproveitava para dar umas olhadelas nos rapazes.
Foi assim que se apaixonou. Ele já comprometido com outra moça, deixou o garimpo defasado em Jacobina para tentar a sorte em Vila dos Remédios. “Ele veio e ficou para aqueles lados do Marcelino, já era noivo mas eu não sabia, não tive culpa né”. Ela cai na risada, ao rememorar a paquera que começou bem escondida.
Vitalina conta que tinha muito medo do pai, porque com ele não tinha “liberdade nenhuma”. Era muito rígido e quase não havia diálogo em casa. Assim, ela viu o namorado somente três vezes, o garimpo ficou ruim e logo ele migrou para São Paulo.
Depois de alguns anos, ele voltou e a pediu em casamento, mas seu pai não aceitou. “Meu pai era muito bravo, eu lembro que teve um baile no dia que meu namorado chegou. Meu Deus, ele ficou tão mal, bebeu e chorou como uma criança com a braveza do meu pai. Eu gostava dele mas não podia fazer nada. Eu não queria ser expulsa de casa”.
Casou mesmo assim, com o apoio da mãe – que não queria a filha beata – e contra a vontade do pai. Se fixou no garimpo com o marido para tentar a vida. Ela se emociona ao lembrar dos filhos que sempre estiveram com ela independente de tudo. Teve 10, os mais velhos sempre a ajudavam na hora do parto, quando não dava tempo chamar a parteira.
“Essa menina mesmo que estava aqui comigo eu lembro que cheguei do garimpo e fui buscar lenha para cozinhar, quando eu estava voltando da roça com o feixe de lenha na cabeça a bolsa estourou e ela nasceu”.
O filho Ivanildo Monteiro de Souza de 55 anos não desgruda de dona Vitalina. Ele confessa que não conhece nínguém com tamanha força na cidade. Ele mesmo ainda é ajudado pela mãe. “A minha mãe tem um conhecimento danado e uma memória de invejar. Ela também já foi professora viu”. Vitalina pouco se lembra da época em que foi professora, que exerceu quando era solteira. Estudou até a quarta série e diz que se arrepende amargamente de ter parado de trabalhar para casar.
“A única coisa que me arrependo na vida foi de ter parado de estudar. Quem tomava conta das escolas era o coronel Leocádio, José Canho, mas depois foi morrendo tudo, a cidade foi acabando e eu também não pude mais estudar”.
Mas hoje Vitilina segue com a certeza do dever cumprido, afinal fez o que pôde na época. “A gente não pode abraçar o mundo também porque a gente só tem duas mãos né. Pera aí que tem mais coisas que não contei. Eu tive uma filha também, morena de olhos verdes tão linda, morreu. Ninguém sabe até hoje de que”.
Por um momento seu semblante fica triste, mas logo volta à realidade e demonstra não querer mais falar do assunto. “Vocês querem café”? Os filhos afirmam que ela ainda ama cozinhar. Essa é Dona Vitalina, uma das primeiras mulheres a trabalhar no garimpo em Novo Horizonte.
Das rupturas com o patriarcado ao despertar de uma guerreira
Por Maiudes Anjos

O cabelo preto e cacheado por debaixo do chapéu, as unhas vermelhas e o batom vinho que faz sobressair a pele morena demonstram sua altivez e determinação. Sua mãe sempre dizia que ela é fruto de um milagre. A mãe usava drogas e teve complicações na gravidez. Mas Ana Claudia nasceu bem e saudável. Hoje, aos 29 anos, Ana rememora a frase que a mãe repetia: “Se não fosse a minha filha eu teria morrido de desgosto usando pedra”.
Cláudia foi a primeira de seis filhos. Sua mãe a criou trabalhando nas fazendas do agronegócio, na região de Pirenópolis, e resolveu deixar a vida da cidade e das drogas quando a filha nasceu.
Ela cresceu e aprendeu o trabalho com a mãe. “Comecei a trabalhar desde os 13 anos. Ganhava 50 ou 60 reais por dia mas já servia para ajudar minha mãe no mercado”, relembra.
Ela aprendeu a amar o trabalho na roça e confessa que, desde essa época da adolescência, mantinha um sonho: queria ser uma engenheira agronôma para não precisar trabalhar em roça dos outros ter alguma autonomia. Com 17 anos, ela pegava o ônibus na fazenda com destino à Brasília para cursar o Técnico em Agropecuária, que conseguiu por intermédio de uma professora. “Nunca medi esforços para estudar, se estou aqui hoje é porque muitas oportunidades me faltaram mesmo”
Todos os dias percorriam o caminho da fazenda para a cidade. Cursou por um ano, mas teve que parar porque não conseguiu conciliar com o trabalho no agronegócio. Quando ela tinha 20 anos, a mãe foi demitida. Desempregadas, partiram novamente para Brasília e perambularam pelas ruas por algum tempo sem dinheiro para o aluguel. Ao se lembrar das dificuldades que passou nessa época, Ana Cláudia remexe as mãos nervosa.

Depois de muita persistência, ela conseguiu um emprego nas lojas Americanas enquanto a mãe fazia bico como faxineira. Cláudia estava feliz com o emprego e chegou a ingressar na faculdade de Biologia, que era o que dava para pagar, e iniciou um técnico em engenharia, mas então o destino a aguardava com uma triste surpresa.
A irmã que morava em Barreiras na Bahia ficou muito doente e Cláudia foi designada a cuidar dela. “Eu me senti na obrigação de ir porque não havia quem tomasse conta e eu não podia deixar minha irmã morrer sozinha”. Ela abandonou tudo e foi cuidar da irmã na Bahia. Entretanto quando sua irmã conseguiu melhorar de saúde, Cláudia não teve dinheiro suficiente para retornar à Brasília. “Tive que me virar aqui para conseguir algum emprego”.
Foi, assim, que ela chegou pela primeira vez ir ao garimpo de Novo Horizonte, onde trabalha há três anos. Confessa que tinha um certo preconceito com o trabalho no garimpo, mas a urgência da situação a fez mudar de ideia.
Movida pelo desejo intenso de voltar para perto da família em Brasília, Cláudia agora investe toda sua força nesse trabalho. Pretende terminar a faculdade e construir sua própria casa próxima da mãe. “Tem vez que consigo de R$180 a R$200 por dia. Com esse dinheiro, já ajudei minha irmã nos gastos com o tratamento e consegui construir uma casa para minha mãe. Agora, quero construir a minha e voltar para a faculdade”.
Sentada numa poltrona e puxando o guincho, ela dá ordens a dois homens subordinados a ela. Foi a muito custo que conseguiu um cargo mais elevado no garimpo e hoje realiza um trabalho que poucos homens ali fazem.
Ana Cláudia ainda fala da ansiedade e de sentimentos que a acometem constantemente como a saudade e o medo de não conseguir voltar para Brasília. Mas afirma com seriedade sobre seus objetivos. “eu nunca fui de desistir de nada, se estou aqui até hoje não é agora que vou parar. A gente precisa quebrar o paradigma de que a mulher dever obedecer a ordens de homens em alguns trabalhos. Quando cheguei aqui, não acreditavam que eu pudesse realizar o trabalho sozinha. O dono do garimpo sempre colocava algum homem à espreita, mas hoje sou respeitada. Mostrei para eles que nós, mulheres, somos tão capazes quanto os homens. É isso que precisa ser feito”.
O outro lado da vida de uma garimpeira
Por Maiudes Anjos

Sentada no banco de madeira ao lado da cabana de lona amarela, Cleonice Souza olha em algum ponto do outro lado das montanhas que atravessam o garimpo. Se esforça para lembrar de sua infância. Nas mãos, são explícitos os sinais do trabalho duro desde criança. A voz grave demonstra a sua força.
Com amor, ela olha para o filho mais novo deitado sob o colchonete brincando. Ela conta sobre os anos difíceis que viveu quando era ainda uma menina.
Desde os dez anos, levantava todos os dias às quatro da manhã para ralar mandioca com os pais,. Ao final do dia, os pés doíam com os espinhos e a roupa repleta de carrapicho. Era a filha mais velha e tinha a obrigação de ajudar os pais no trabalho. Apesar da rotina extenuante, não se arrepende de ter conhecido a dura realidade da vida tão cedo, mas confessa que seu maior sonho é proporcionar uma vida diferente para seus filhos.
Ela conta que a rigidez dos costumes daquela época ela pouco aproveitou a juventude. O pai muito ciumento não a deixava sair senão para a roça. Casou um pouco tarde para a época e foi tentar a vida com o marido cuidando da roça “de gente rica”. Não deu certo. Os filhos foram nascendo, agora já tinha três e a diária de 30 reais que obtinha com o trabalho na fazenda não dava para prover o alimento.
Migrou para São Paulo com a esperança de novas oportunidades, arranjou um emprego como doméstica. Mas a humilhação diária lhe doía na alma, passava fome. Na casa do patrão só comia quando sobrava. Lembra que a patroa a ordenava a contar as rodelas de tomate para que não tivesse sobra.

Resolveu voltar para a Bahia e seu destino foi a cidade de Novo Horizonte. Ela sorri quando questiono o trabalho difícil do garimpo. “Não tenho opções minha filha, não tenho estudo e prefiro mil vezes estar aqui do que lavando banheiro para os outros”.
Apesar de dizer que a vida no garimpo não oferece nenhuma estabilidade e temer doenças como a silicose, que já matou alguns amigos, ela argumenta que o desejo de conseguir prover uma dignidade para os filhos é maior. Evangélica, Cleonice afirma que tudo que faz é movida pela fé. “É preciso força para a gente enfrentar as adversidades mas acima de tudo coragem para vencer e isso a gente só consegue se estiver com Deus”.