Do estado bruto à lapidação

Serras que cerceiam os garimpos   Foto: Èrica Araújo

Os últimos dias têm sido conturbados, finalmente chegamos aos detalhes finais do nosso trabalho.  Após toda coleta de dados, passamos a rememorar os momentos das visitas de campo e começamos a refletir o quão essa aproximação entre pesquisador e pesquisados foi importante para proporcionar uma experiência de conhecimento indescritível acerca do garimpo.

Às seis horas da manhã do dia 15 de janeiro de 2018 segunda- feira checamos o equipamento: câmera de fotografia, celulares e o roteiro de entrevista. Entramos no carro e partimos em busca das histórias dessas mulheres. Ao chegarmos, nós deparamos com um garimpo muito diferente do que havíamos imaginado ou do que normalmente é mostrado nos veículos de comunicação.

Localizados em cima de grandes serras, a extração é realizada em buracos profundos.  A cada passo caminhado,encontrávamos amplas catras, buracos feitos para a extração das pedras, com cerca de 200 metros de profundidade, sem contar com uma grande quantidade de mulheres itinerantes trabalhando no local, onde geralmente é um lugar ocupado pela figura masculina.

Logo de início muitas perguntas se repetiam a todo momento: Isso vai passar na tevê? É uma reportagem de denúncia? A polícia federal vai bater aqui? Ou então a crítica mais clássica que todo jornalista enfrenta: Vocês jornalistas são todos mentirosos, garante uma coisa e publica outra;  ou Vocês vejam lá o que vão dizer, essa pessoas precisam do garimpo para sobreviver.

Seu Osvaldo faz questão de explicar o dia a dia no garimpo    Foto: Érica Araújo

Observamos na prática como é esse trabalho braçal  e como é o cotidiano dessas pessoas. Todos de origem simples, poucos tiveram a oportunidade de completar o ensino fundamental e médio, raros são o que possuem um ensino  superior e que têm uma noção crítica do seu lugar naquele ambiente.

Lá, todos possuem seus barracos de madeira, uma parte seria o quarto e a outra seria a cozinha, o  banheiro era recoberto por uma lona com uma fossa seca sem restrição de sexo, todos compartilhavam o mesmo sanitário.  Ao conversamos com as garimpeiras, podemos notar traços de uma mulher submissa, que tinha medo do patrão, do marido ou do filho. Acostumadas a serem silenciadas majoritariamente pela figura masculina, elas pouco falavam, outras simplesmente não se negavam a falar, o medo, a repressão era muito forte.

 As poucas narrativas que escutamos foram de tragédias vivenciadas por elas nos garimpos do Brasil afora. Ao perguntarmos sobre quais seriam os cuidados que elas tinham para exercer a profissão, a resposta foi de que o protetor solar, roupas adequadas e máscaras de proteção ao pó seriam artigos de luxo.

Catra com aproximandamente 90 metros de profundidade     Foto: Èrica  Araújo 

Também encontramos muitas mulheres guerreiras que deixaram seus filhos em outras cidades para irem em busca de uma condição melhor.  Já outras, mantêm toda a família no garimpo. Os olhares nos contavam mais histórias do que elas conseguiam relatar. Outras em uma simples conversa começavam a revelar seus sonhos, seus medos, e sua fé.  Por virem de diversos garimpos muitas relatam que o de Novo Horizonte é o mais tranquilo, que a cidade não é tão violenta como as que elas haviam passado. E assim, encerramos o nosso primeiro contato.

Na segunda visita, que aconteceu entre os dias 22 a 24 de outubro, o ambiente hostil parecia ter se amenizado. As mulheres que encontramos peneirando a terra no primeiro encontro não haviam mais. Deste modo, nos deparamos com mulheres operando máquinas, desconstruindo paradigmas rotineiramente. Nesta última visita, visitamos apenas ao garimpo legalizado, um dos únicos, aliás.

A maioria dos buracos têm em volta  de cimento assim evitando os riscos de desabamentos      Foto: Lis Nery

Para nossa surpresa, encontramos uma figura por nome de seu Orlando que nos ajudou pela primeira vez com a aproximação com essas mulheres, já que na primeira visita nos aproximamos por conta própria. Nós, então, fomos conhecer o povoado de Remédios, um vilarejo que por muito pouco não se tornaria a sede da cidade.

O pequeno povoado localizado na cidade de Novo Horizonte é  um lugar rodeado de histórias acerca dessas atividades de extração. O nome Remédios teve origem por meio dos bandeirantes e garimpeiros devido a nascente de água mineral,  sendo muito conhecido por ter uma igreja de arquitetura barroca construída por escravos na época colonial. Outro fato que chama atenção no povoado é a construção das oitos casas de mesma estrutura, todas marcadas com as letras iniciais do coronel Leocádio.  

Dialogamos com cerca de três mulheres, moradoras do povoado. A mais jovem tinha 32 anos e a mais velha tinha 94 anos. Ouvimos histórias tão gratificantes que, para alguns, eram considerados até mesmo um mito.

Relatos de quando Dona Vitalina encontrou ouro no córrego há mais de cinquenta anos nos fizeram despertar a curiosidade de adentrar em seu passado, ou quando ouvimos Leidinha relatar que seu pai havia falecido há cerca de três meses antes da entrevista, por uma doença causada pelo pó do garimpo: a silicose, esses relatos fizeram nos aprofundar nessas histórias de vida.

Juscileide e seu Osvaldo explica como é feita a limpeza das pedras     Foto: Lis Nery

Após as visitas no povoado, nos dirigimos ao garimpo de Celso em que formos na primeira visita. De início, notamos algumas mudanças no espaço. Ao  adentramos no garimpo, fomos recebidas pelo coordenador do garimpo. Gentil, ele fez questão de nos informar de como aconteciam as atividades e como elas eram distribuídas. Lá, poucos eram os barracos de madeira que estavam de pé, agora pequenas edificações de cimento faziam parte do ambiente, os banheiros que antes eram de lona ou no mato, agora são de cimentos, no total de quatro sanitários, 2 femininos e 2 masculinos.

 Na ocasião havia somente três mulheres, as outras que conhecemos na visita anterior haviam partido para outros garimpos.  Logo,observamos o empoderamento em seus relatos, uma delas possui o ensino superior, mas estava ali para juntar dinheiro para realizar o seu sonho de ter sua própria casa. O que mais nos chamou atenção foi a forma de como aquelas mulheres eram tratadas pelos homens, sempre com muito respeito, nada de inferiorizá-las por ser mulher. Todos exerciam as mesmas funções, independente de ser homem ou mulher.

Durante as entrevistas, ouvimos um relato sensível do senhor José Martins, no decorrer dessa experiência  podemos entender melhor o que essas pessoas enfrentam no garimpo e o tanto que elas sofrem para conseguirem sobreviver.

Mas antes de encerrar, vamos fazer um brinde?